Já lá vão 500 e algumas páginas, as coisas não estavam previstas para serem assim, só pretendia que o projecto tivesse pouco mais de 60 páginas mas a história e as personagens têm tanto mas tanto a ver comigo que me deixei extrapolar, para muitos pode ser um exagero, para mim é o desenrolar normal de uma história intensa, verdadeira e tão minha em quase tudo, com pormenores, situações, pedaços, emoções e momentos tão meus [tão nossos] e na qual não vou cortar nada, nem uma vírgula, para encurtar o número de páginas. Corto em quê?! Neste ou naquele pormenor?! Tudo faz falta, tudo completa, tudo enriquece, tudo dá cor e outra visibilidade a este projecto, nada está ali naquele sítio, naquele dado momento por acaso, nada é escrito ao acaso, é tudo pensado e sentido verdadeiramente. O final do trabalho já começa a espreitar, começo a preparar-me psicologicamente aos poucos para me separar do Mikas e da Bia, vai-me custar horrores, vai ser duro, vai custar mesmo a sério, principalmente porque gostei imenso de construir estas personagens, de sentir na alma e na pele a sua sensibilidade, a sua pureza, de viver as suas emoções, as suas aventuras, de rir e chorar. Há quem pense: "Ana, acorda, são só duas personagens mais nada", pois é mas são duas personagens muito especiais, tão especiais que me fazem sentir vazia por dentro e por fora, só de pensar que um dia, brevemente, vou ter que deixá-las para sempre. Encostá-las a um canto, mas ficarão guardadas na memória e no coração para sempre. É estranho dizer isto mas só o vai entender quem conseguir escrever ou fazer algo com a qual se identifique, quando conseguirem isso, tenho a certeza que irão perceber este sentimento que eu sinto.
Tal como dizia o José Luís Peixoto no programa "Há conversa" da RTP Memória que estive a ver hoje, no processo de escrita, o que dá mais gozo é poder pegar numa ponta do novelo da nossa memória e ir desenrolando as memórias, recordações e emoções que no fundo vão influenciar o que escrevemos, vão ser a base de qualquer trabalho de escrita e isso vale por tudo porque a nossa memória não dura toda a vida e se calhar há pequenos pormenores que nos recordamos quando fazemos ou escrevemos alguma coisa que nos faz puxar pelas nossas memórias, pensando bem talvez se fosse hoje, não nos tivessemos lembrado de recordar esta ou aquela memória, este ou aquele momento e é isto que marca a diferença, o poder de recordar o que se já se viveu, o que nos marcou e marca para sempre. Quem me conhece sabe que eu vivo muito de recordações, daquilo que as pessoas com quem me cruzo vão deixando, as pequenas tatuagens boas, dou imenso valor aos pormenores, às datas sejam de aniversário ou não, aos momentos, às pessoas, a pequenas coisas a quem nem toda a gente sabe dar o devido valor, ou pelo menos não os vê nem os sente como eu mas ainda há quem saiba olhar para eles como se fossem os meus próprios olhos.
"Amigos para sempre", é isto, são pormenores, simples, pequenos e tão insignificantes mas importantes para mim, todos juntos num sitio só, que vão tomando forma para contarem uma história básica, pura, mas tão verdadeira, porque nunca amizade as coisas tem que ser construídas, partilhadas e vividas tal como a Bia e o Mikas são capazes de fazer, para mim é assim, e é assim que eu vejo o conceito de amizade. Entrega total. Espero que esta história tenha capacidade para fazer o leitor pensar, e tirar verdadeiras lições de vida, pelo menos é esse o meu objectivo.
Foi o momento de escrita mais incrível que vivi, sim, quem escreve também vive, porque constrói, pensa e trabalha os pormenores, para que tudo faça e tenha um sentido, para que haja uma lógica, dorme com as personagens debaixo da almofada, come com as pensonagens no pensamento, com as ideias a fazerem reboliço no peito e a fazerem o coração bater forte e mesmo já cansada não pára. Desafia-se, supera-se, experimenta coisas novas e ideias novas, lê e relê pedaços de texto mil vezes se for preciso e muitas vezes há sempre qualquer coisa que escapa, e volta ao principio escreve e rescreve tudo novamente, tenta melhorar, acrescenta e substitui palavras e diálogos, procura novos sentimentos, novas emoções, novas formas de dizer as coisas, para que tudo fique como quer. Mas nem sempre é fácil, no processo de escrita ás vezes é dificil escrever e descrever o que queremos realmente dizer, encontrar as palavras certas.
Na maioria das vezes no fim fico satisfeita e penso: "Consegui chegar onde queria, é isto. Valeu a pena dar voltas à cabeça".
Até agora "Amigos para sempre" tem sido o que eu sempre quis e é isso que me importa e me faz extremamente feliz, :).